O mercado está errado #01
Anos de experiência é uma medida superestimada no mercado de trabalho
Eu passei mais de 3 dias editando o vídeo que publiquei ontem no canal Programação Dinâmica, uma espécie de vlog narrado sobre uma visita ao Museu da História da Computação, no…

Eu passei mais de 3 dias editando o vídeo que publiquei ontem no canal Programação Dinâmica, uma espécie de vlog narrado sobre uma visita ao Museu da História da Computação, no Vale do Silício.
Tenho uma década de experiência em produção de vídeos para o YouTube. Já roteirizei, captei, editei e publiquei centenas de vídeos. Particularmente, tenho muito orgulho do meu trabalho em cada um deles, inclusive o de ontem. Eu poderia fazer um currículo contando uma narrativa profissional no audiovisual e alegando uns 7 anos de experiência em edição de vídeos. Ainda assim, tenho certeza que existe um(a) editor(a) de vídeo com 2 anos de experiência que seria capaz de editar o meu vídeo mais rápido e melhor do que eu.
Apesar de ter editado centenas de vídeos, na maioria das vezes, eu estava repetindo um processo com um formato bem definido. No canal, há algumas dezenas de vídeos que são muito diferentes, tais como o que ensino a fazer uma capa da invisibilidade; o que entrevistamos pessoas sobre infraestrutura de aplicações web, os reels/shorts patrocinados por algumas empresa ou este último vlog. Esses momentos de quebra da rotina foram os que mais exigiram o desenvolvimento de novas habilidades criativas e técnicas.
A repetição te torna bom em fazer aquilo que você repete, mas com rendimento decrescente.
Eu consigo editar uma videoaula com muito mais fluidez e até mais qualidade, hoje, do que 8 anos atrás. No entanto, os ganhos diminuem muito com o tempo, de modo que a minha competência em edição de videoaulas há 5 anos deve ser muito próxima do que ela é atualmente, ainda que eu tenha aprendido a dominar outro software — migrei do Final Cut Pro para o DaVinci Resolve.
A maioria das empresas quer que você execute — e que execute rápido. Há quem passe anos fazendo as mesmas coisas, com raras situações que lhe exigem algo a mais. A pressão por velocidade e a compartimentação de responsabilidades tolhe até as mentes criativas de tentarem algo novo com frequência; afinal, você tem que parar, estudar, refletir e correr o risco de errar (o que nem sempre é tolerado).
O tempo ignora o talento, o repertório e a intenção.
Ao usar uma régua comum e curta para medir profissionais, corre-se o risco de contratar um profissional subdesenvolvido, por ter passado aquele tempo apenas repetindo tarefas, e ignorar um diamante: alguém que foi capaz de aprender e se desenvolver de forma muito mais rápida e que, sim, seria mais competente do que várias pessoas "mais experientes".
Eu frequentei vários espaços onde encontrei pessoas com uma capacidade fenomenal de aprendizado e aquisição de competências, frequentemente fazendo conexões que poucos viam e desempenhando, na prática, algumas tarefas de modo muito superior ao esperado para tão pouco tempo de "experiência". Apesar de tê-las conhecido em lugares como o Colégio Naval, o Instituto militar de Engenharia ou o IMPA, sei que há várias delas espalhadas por aí.
Por exemplo, conheci o Gabriel Vianna nos treinos de Karatê. Na época, ele tinha dificuldade em passar em Cálculo na faculdade. Passamos alguns meses estudando programação, entendi que lhe faltava base matemática, lhe recomendei uns livros e ele conseguiu aprender muita coisa de forma independente. Nas nossas conversas, dava para ver que era um diamante bruto. Em 8 meses de estudo, foi contratado como programador backend. Hoje, é um desenvolvedor de software fantástico e bem empregado. Tinha vontade, tinha talento, mas lhe faltava repertório.
Acho que há muita preguiça no mercado de trabalho quando o assunto é a parte humana da coisa. Virou prática comum listar dezenas de requisitos acompanhados de X anos de experiência, quase como uma licitação pública. Muitas empresas parecem mais preocupadas em eliminar pessoas dos seus processos seletivos do que em encontrar profissionais capazes de construir algo significativo.
O cúmulo disso são vagas que pedem pedem X anos de experiência em uma tecnologia ou metodologia desenvolvida há Y anos, Y < X. Ontem mesmo, li um post no LinkedIn denunciando isso.
Tem gente que olha pra essas coisas e só aceita, como se o mercado fosse um entidade toda-poderosa, um deus, inquestionável, restando a nós apenas o papel de se adaptar e venerá-lo.
Não! O mercado está errado!
O mercado precisa mudar, inclusive, para sua própria sobrevivência.


